Home Server - Por que montar e o hardware escolhido
Montei um Home Server. Não foi por luxo nem por hobbyismo: foi porque as alternativas que eu usava estavam me custando tempo demais. A ideia ficou parada na cabeça por meses, sei lá, anos. Até que alguns problemas começaram a me irritar o suficiente pra eu finalmente fazer alguma coisa.
O problema com o streaming
O primeiro foi o streaming. Não que eu seja contra pagar por um serviço, o problema é a imprevisibilidade. Títulos “somem” do catálogo sem aviso. Animes que eu queria assistir novamente de repente não estão mais disponíveis. Séries antigas que nunca chegaram a nenhuma plataforma. Filmes de nicho que existem num catálogo hoje e “somem” amanhã.
Quero ter controle sobre o que assisto, quando assisto e em qual dispositivo. Um servidor de mídia próprio resolve isso.
O segundo motivo foi armazenamento na nuvem, sobre isso vou falar em um outro post, e também para estudo. Trabalho com tecnologia e sempre quis ter um ambiente local para testar coisas, subir serviços, experimentar configurações sem depender de nuvem ou de uma máquina que uso no dia a dia.
Com esses objetivos na cabeça, fui pesquisar.
As opções que encontrei
A pesquisa foi longa: fóruns, vídeos, Reddit, comunidades de homelab. As opções que apareceram com mais frequência foram TrueNAS, UnRAID, CasaOS e OpenMediaVault. Cada uma com um foco diferente: TrueNAS é muito sólido para armazenamento e ZFS, UnRAID é popular mas pago, CasaOS tem interface bonita e é mais voltado para iniciantes, OMV é open-source e bom para NAS simples.
Apareceram também as soluções prontas de hardware: Synology e ASUSTOR. Chegam com tudo junto, hardware e software pensado para quem quer plugar e usar. Para muita gente é a melhor escolha. Mas não era o que eu queria.
Eu queria escolher as peças. Queria entender o que estava rodando embaixo. Queria poder expandir, trocar, configurar do jeito que faz sentido para o meu uso. Soluções prontas tiram exatamente essa parte do processo que me interessa.
Por que o Proxmox
Foi então que cheguei no Proxmox VE. É um hipervisor tipo 1, ou seja, roda direto no hardware sem sistema operacional por baixo, baseado em Debian Linux. Gratuito, open-source, com interface web completa e usado em ambientes corporativos de verdade.
A proposta é simples: em vez de um servidor físico por serviço, você virtualiza tudo. Cada aplicação roda numa VM ou container isolado (explico mais abaixo), compartilhando o mesmo hardware. O Proxmox gerencia isso por uma interface web, sem precisar de teclado e monitor conectados à máquina.
Além do uso prático, é um laboratório para estudar virtualização, redes, containers e storage.
Uma VM (Máquina Virtual) é um computador "simulado" por software, tem seu sistema operacional próprio, CPU e memória dedicados, como se fosse uma máquina separada existindo dentro da física.
Já o container é mais leve: não simula o hardware inteiro, só isola a aplicação do resto do sistema. Compartilha o núcleo do sistema operacional do host e ocupa muito menos espaço e memória. A troca é que você perde o isolamento total que uma VM oferece.Decisão tomada. Agora era escolher o hardware.
O hardware escolhido
Placa-mãe Topton N5105
A Topton N5105 vem com o processador Intel Celeron N5105 soldado na placa: quatro núcleos, quatro threads, TDP de 10W. Esse número foi o que me chamou atenção logo de cara.
Um servidor que fica ligado 24/7 tem que ser eficiente em energia.
Além do consumo baixo, o que convenceu foi o conjunto de I/O:
- 4 portas de rede 2.5G com Intel i226-V B3, que é essencial para separar tráfego de gerenciamento, VMs e storage em interfaces distintas
- 6x SATA III e 2x M.2, espaço de sobra para crescer em armazenamento
- 2 slots SODIMM DDR4 com suporte até 32GB
- Wake-on-LAN e PXE nativos
É placa de mini PC industrial, feita para rodar sem parar. Sem cooler barulhento, sem peça que não aguenta uso contínuo.
SSD Kingston NV2 1TB (M.2 NVMe)
O disco do sistema: onde o Proxmox fica, junto com ISOs, containers e VMs. O Kingston NV2 faz leitura de 3500 MB/s e gravação de 2100 MB/s via PCIe. Para um homelab, é mais do que o suficiente.
1TB dá espaço confortável antes de precisar repensar a organização do armazenamento.
SSD MOVESPEED 1TB (NVMe PCIe 4.0 x4)
Um segundo M.2, dedicado a projetos e testes que precisam de disco próprio. No momento está rodando um node Bitcoin, que escreve e lê continuamente uma quantidade considerável de dados. Ter um disco separado para isso isola o workload e não compete com o sistema principal.
2x WD Red Plus 4TB em ZFS Mirror
Para os dados, filmes, séries e backups, escolhi dois WD Red Plus de 4TB em ZFS Mirror.
O WD Red Plus é feito para NAS: opera 24/7, 5400 RPM (menos calor e menos ruído que 7200 RPM) e tem firmware otimizado para operação contínua. A escolha do Mirror veio de uma lógica que encontrei durante a pesquisa:
Sim, tinha-se feito vários testes com benchmarks, muito bem feito por sinal.
Você se importa com seus dados?
Não: vá de striped.
Sim, continue:
Quantos discos você tem?
1: ZFS não é para você.
2: Mirror
3-5: RAIDZ1
6-10: RAIDZ1 x 2
10-15: RAIDZ1 x 3
16-20: RAIDZ1 x 4Com dois discos, Mirror é o caminho. Os 4TB ficam disponíveis para uso (o segundo disco trabalha inteiro como cópia) e se um falhar, não perco nada. O ZFS ainda faz checksum de todos os blocos, então corrupção silenciosa de dados é detectada antes de virar problema.
2x Corsair Vengeance 16GB DDR4 2666MHz, 32GB no total
SODIMM, que é o que a placa exige. Dois pentes de 16GB em dual channel, totalizando 32GB.
Para quem vai virtualizar, RAM é o recurso mais crítico. Cada VM precisa de memória alocada. Com 32GB tenho folga para rodar vários serviços ao mesmo tempo sem o sistema começar a reclamar.
Fonte Cooler Master G500 Gold 500W
Sim, 500W para uma placa com TDP de 10W parece exagero. Mas tem uma razão.
Uma fonte 80 Plus Gold opera com eficiência acima de 90% na maior parte da curva de carga. Fontes baratas sem certificação perdem mais energia convertendo AC em DC, o que a comunidade chama de vampirismo energético: watts que saem da tomada mas nunca chegam nos componentes. Com o servidor rodando 24/7, esse desperdício aparece na conta de luz mês a mês.
Além disso, uma fonte dimensionada com folga trabalha longe do limite, o que significa menos calor e mais vida útil. E sobra margem para adicionar discos ou qualquer outra expansão futura sem precisar trocar a fonte.
Gabinete Wisecase CK-16
Aqui entra um toque de reutilização. O gabinete é um Wisecase CK-16, meu primeiro gabinete de PC Gamer, comprado há muitos anos. Não fazia sentido deixá-lo parado. Acabou sendo uma escolha melhor do que parecia: 4 baias de 5,25", 4 baias internas de 3,5" e mais 2 expostas - espaço de sobra para os WD Red Plus e qualquer expansão futura. Gabinetes modernos, costumam vir com uma ou duas baias de HD no máximo. O CK-16 resolve isso sem precisar comprar nada novo.
Resumo do hardware
| Componente | Modelo | Observação | Preço unit. | Total (c/ frete) |
|---|---|---|---|---|
| Placa-mãe / CPU | Topton N5105 | TDP 10W, 4x NIC 2.5G | R$ 627,16 | R$ 627,16 |
| SSD sistema | Kingston NV2 1TB NVMe | Proxmox, VMs, ISOs | R$ 258,99 | R$ 276,31 |
| SSD projetos | MOVESPEED PCIe 4.0 | Node Bitcoin e testes | R$ 236,15 | R$ 236,15 |
| HDs de dados | 2x WD Red Plus 4TB | ZFS Mirror | R$ 444,99 | R$ 889,98 |
| Memória | 2x Corsair Vengeance 16GB DDR4 | 32GB dual channel | R$ 209,99 | R$ 426,33 |
| Fonte | Cooler Master G500 Gold 500W | 80 Plus Gold | R$ 399,90 | R$ 399,90 |
| Gabinete | Wisecase CK-16 | Reutilizado | — | — |
| Cabo Splitter SATA 6P | — | Acessório de instalação | R$ 49,05 | R$ 49,05 |
| Total | R$ 2.904,88 |
Com o hardware definido, o próximo passo foi instalar o Proxmox. Isso fica para o próximo post.